Sunday, November 26, 2006

Instrumental Music Has No Lyrics....



O Album: The Carnegie Hall concert
O Artista: Keith Jarrett
A Faixa: Part VII
O Detalhe: Botão repeat no iTunes.
O Resultado:

"A few years ago, after Jarrett had returned to playing solo improvisation concerts, he decided that he no longer had to play one continuous, concert length piece of music. A recording culled from two solo concerts in Japan, Radiance, illustrated Jarrett's new approach, and The Carnegie Hall Concert was performed similarly. There are ten separate improvisations and five remarkable encores. The first, titled "The Good America," is meant to be heard as part of the other improvisations (which are unnamed). Jarrett admits that several of the improvisations are "thorny and spiky" — strangely dissonant and challenging excursions that probably reflect for a New York audience a semblance of daily life. One of the biggest ovations of the night comes after the seventh piece, an uplifting gospel flavored invention that finds Jarrett in full exaltation. "After the harder music, the audience needs sweetness and therapy," Jarrett says later. "In fact, I needed it, too.""

http://www.steinway.com/features/MainFeature.shtml

Imaginem só, que eu fui me encantar justo com essa parte de um concerto lançado em CD, em que as únicas indicações (fora a musica em si, é claro) da descarga de emoções do artista em "full exaltation" são os barulhos já conhecidos acompanhando a melodia em questão de uma forma desafinada. Queria estar lá, queria ver (de novo) o que leva a construção repentina de uma pequena obra de arte feita completamente instintivamente, na sua maneira mais poderosa: A improvisação.

Acho que está fora da realidade de qualquer um, até do artista, compreender como essa descarga de emoções é transmitida aos ouvintes de tal maneira. É incompreensível como uma equação simples envolvendo apenas um homem mais um piano, consegue tornar uma audiência de pessoas do tamanho e diversificação da do Carnegie Hall naquela noite, por exemplo, meros coadjuvantes em um momento que dura precisamente 7:30. Esses 7:30 são um infinito aglomerado de sentimentos e emoções, transmitidas diretamente das mãos do pianista ao seu instrumento. Estas são amplificadas pela perfeição no desenho do piano Steinway, e captadas pelos microfones e pelos ouvidos de milhares de ouvintes, seja ao vivo, ou posteriormente. O que presenciamos, ao ouvir Part VII, é o sucesso de um entre poucos dotados de se expressar por meio de um instrumento musical, emoção e criatividade.

Como musico, tenho imensa admiração à habilidade do colega infinitamente mais respeitável de conseguir tocar tantas pessoas por meio de sua musica. Creio que a altura máxima que qualquer musico pode chegar em sua carreira, é a de ter o poder de se apresentar perante uma audiência, e de alguma maneira, mover cada pessoa presente por meio de uma performance espontânea, que vem de dentro. Se ha algum objetivo final, em minha carreira como musico, com certeza seria este.

Para atingir este objetivo, o músico precisa ter dentro de si, a sintonia necessária para simplificar a complexidade de seus sentimentos, e transmitir estes sentimentos ao publico em questão. Se a complicação vira presente novamente dentro do ouvinte, o seu trabalho estará feito. Tornar o resultado da equação: Musico + Instrumento igual a algo como a Part VII, exige talento. Não necessariamente talento em excesso, apenas o suficiente para que toda a “simplificação” seja transmitida da maneira em que o musico a sentiu, e gostaria que fosse sentida. É importante observar que esta transmissão não deveria ser feita para agradar a todos. Não seria possível. Acredito que a improvisação na musica instrumental é o único jeito de atingir esse objetivo da maneira mais efetiva.

Não tenho a intenção de desmerecer os poetas e letristas. Creio que a arte de por em palavras o que não pode ser dito é um talento de que poucos podem gozar. Porém não creio que a mistura das palavras com a musica chegou a ser tão efetiva como a musica instrumental, quando se diz respeito à transmissão de sentimentos. Não acredito que existe uma canção sequer em que a letra e a melodia trabalham juntas exclusivamente para tocar o ouvinte. Em muitos casos, é a letra o que toca o ouvinte. Em outros, é a melodia. Uma torna a outra coadjuvante.

Na musica instrumental, não existe letra para se esconder a real intenção. O que é tocado é o que é sentido. Ela exige do musico um excelente comando de tempo real, e uma confiança absoluta em si mesmo. É isso que me atrai cada vez mais a esse tipo de musica. O improviso existe na musica cantada, mas ele é enjaulado entre versos e notas previamente ensaiadas. Não se pode tomar a liberdade de recriar um tema de forma diferente a cada vez que ele é tocado. Os solos reais, não ensaiados, são expressões fulminantes de uma vontade de se expressar, que é suprimida eventualmente pela obrigação da volta ao tema da canção. Existe o medo de que o ouvinte esquecerá a mensagem da letra, e desta maneira, possivelmente tornar a canção menos interessante. Na musica instrumental, o tema da a base de acordes para que a improvisação levante vôo. Marca os tempos de início e fim, mas não enjaula o sentimento. Musicas com improvisação, ao vivo, tem duração indefinida. De 30 segundos, até 2 horas, uma musica só tem a liberdade de representar vários movimentos de sentido.

Part VII é uma das mais perfeitas representações da habilidade de um dos maiores músicos já nascidos de tomar todas as qualidades necessárias para uma apresentação improvisada, adicionar os seus sentimentos, e mover uma audiência ao vivo, e de uma maneira privada. Existem cada vez menos músicos capazes de fazer isto. Este é um fato preocupante, porém o que me preocupa mais, é que existem cada vez menos músicos preocupados em fazer isto.


Talvez musicas como Part VII deveriam aparecer mais nas rádios.

Mas isso é discussão pra outro dia...


Mario